20 de dez de 2009

A arte do porcumentário

Olavo de Carvalho:

É verdade que o cinema esquerdista tem uma longa tradição dessas coisas. Serguei Eisenstein usou todo o seu talento para embonecar a reputação de um ditador-açougueiro que fazia inveja ao próprio Adolf Hitler. Dziga Vertov inventou o kinopravda (“cinema-verdade”), do qual Jeremy Murray-Brown, da Boston University, escreveu em Documentary and Disinformation : “O uso que Vertov fazia da expressão ‘ a vida como ela é ' era o de uma palavra de código. A linguagem dos seus filmes era o equivalente visual dos textos comunistas: significava o oposto do que nela enxergavam os não-iniciados no código. Até 1949, quando da publicação do 1984 de George Orwell, as pessoas comuns não tinham a menor idéia de como funcionava a lingua dupla comunista. ‘A vida como ela é' significava precisamente ‘a vida como ela não é': uma utopia cinematográfica construída com aparências de realidade.” Durante a guerra, a máfia comunista que dominava Hollywood (v. Hollywood Party , de Kenneth Lloyd Billingsley) chegou a fazer um filme que embelezava o pacto Ribentropp-Molotov. Na Itália, Francesco Rosi e outros discípulos de Antonio Gramsci inventaram a ficção documentária, que camuflava sob o realismo das imagens o esquematismo marxista do enredo. E em terras tupiniquins fabricou-se de celulóide até uma Olga Benário que nunca foi agente do serviço secreto militar soviético.

Mas Michael Moore deixa tudo isso para trás. Não tem o requinte visual de Eisenstein, a sutileza de Vertov, a astúcia de Francesco Rosi. Não precisa de nada disso. Entope o espectador de mentiras, e pronto. Farenheit 9/11 não é um documentário, não é ficção documentária, não é kinopravda : é um porcumentário – o produto acabado de uma mente suína.



(Buteco.com, 24/12/2004)

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